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Sistema financeiro e o espírito do escorpião

Como bancos privados manipularam, em seu favor, taxa de juros que incide em contratos estimados em 800 trilhões de dólares. Por Téia Magalhães, na Retrato do Brasil

√Č conhecida a f√°bula do sapo que¬†levou nas costas o escorpi√£o que lhe pediu¬†carona para atravessar um rio. De in√≠cio,¬†o anf√≠bio, temeroso, quis saber se o artr√≥pode n√£o fincaria nele o poderoso ferr√£o,¬†injetando seu veneno letal. O escorpi√£o¬†garantiu que n√£o Ė alegou que, se o fizesse,¬†o sapo morreria e ambos acabariam no¬†fundo do rio. O sapo aceitou a argumenta√ß√£o e concordou em lev√°-lo. No meio do¬†trajeto, por√©m, sentiu a dolorida ferroada.¬†J√° agonizante, inquiriu o escorpi√£o sobre¬†sua promessa. ďO que posso fazer? N√£o¬†consigo fugir √† minha naturezaĒ, ouviu¬†como resposta.

Essa narrativa diz muito a respeito¬†do chamado esc√Ęndalo de manipula√ß√£o da¬†London Interbank Offered Rate¬†(Libor), considerada uma das mais¬†importantes taxas de juros internacionais. As den√ļncias sobre a manipula√ß√£o¬†surgiram h√° cerca de seis anos e h√°¬†dois voltaram √† tona com o an√ļncio¬†de puni√ß√Ķes a infratores. No in√≠cio do¬†m√™s passado, a defini√ß√£o da Libor saiu¬†das m√£os da poderosa Associa√ß√£o dos¬†Bancos Brit√Ęnicos (BBA, na sigla em¬†ingl√™s) e passou a ser de responsabilidade de um gigantesco conglomerado¬†financeiro privado.

A Libor √© adotada desde 1986 como¬†refer√™ncia para contratos financeiros no¬†mundo todo. Estima-se que esses contratos, hoje, cheguem a um montante de 800¬†trilh√Ķes de d√≥lares. A taxa Ė na verdade,¬†um conjunto de variadas taxas, com diferentes prazos e calculadas em diferentes¬†moedas Ė √© fixada diariamente a partir de¬†propostas apresentadas por um comit√™¬†formado por representantes de bancos¬†selecionados, parte dos quais se envolveu¬†na manipula√ß√£o.

A BBA funciona num edif√≠cio de apar√™ncia austera e elegante na City de Londres, um dos tr√™s mais importantes centros¬†financeiros globais, ao lado de Nova York¬†e Hong Kong. A City ocupa mais ou¬†menos tr√™s quil√īmetros quadrados, onde¬†residem cerca de 7 mil pessoas e trabalham¬†mais de 300 mil, em bancos, corretoras,¬†seguradoras e toda esp√©cie de servi√ßos¬†associados a atividades financeiras.

A City possui caracter√≠sticas peculiares: tem autonomia pol√≠tica e administrativa, com governo e pol√≠cia pr√≥prios. A¬†√°rea tem centenas de instala√ß√Ķes banc√°rias,¬†incluindo as sedes de diversas institui√ß√Ķes.¬†Ficam ali tamb√©m a Bolsa de Valores e o¬†Banco da Inglaterra (o correspondente ao¬†banco central brit√Ęnico). Nela funciona o¬†maior mercado de c√Ęmbio do mundo, em¬†que s√£o negociados contratos em moedas¬†de todo o planeta. A City tem uma hist√≥ria¬†de 20 s√©culos Ė h√° registros sobre a √°rea¬†no in√≠cio da era crist√£ Ė, enquanto a da¬†BBA ainda n√£o completou cem anos:¬†a institui√ß√£o foi fundada em 1919. Foi¬†revitalizada no in√≠cio da d√©cada de 1970,¬†quando da profunda mudan√ßa no sistema¬†monet√°rio internacional, provocada em¬†1971 com o abandono, pelos EUA, da¬†paridade estabelecida no final da Segunda¬†Guerra Mundial entre o d√≥lar americano¬†e o ouro, e o crescimento exuberante do¬†mercado de eurod√≥lares.

D√©cadas mais tarde, a associa√ß√£o,¬†que congrega 240 bancos e institui√ß√Ķes¬†financeiras de todo o mundo estabelecidos em Londres, viu-se envolvida num¬†esc√Ęndalo, deflagrado em abril de 2008,¬†quando o prestigiado di√°rio americano¬†Wall Street Journal(WSJ) publicou¬†artigo levantando suspeitas de manipula√ß√£o da Libor.

As investiga√ß√Ķes come√ßaram a ser¬†feitas nos EUA e no Reino Unido a partir¬†de den√ļncias que envolviam a atua√ß√£o¬†do banco brit√Ęnico Barclays, punido em¬†junho de 2012 com multas que chegaram a 290 milh√Ķes de libras esterlinas,¬†ap√≥s seus dirigentes admitirem ter manipulado a Libor desde 2005. A Uni√£o¬†Europeia (UE) tamb√©m investigou o¬†caso e no final de 2012 considerou que¬†alguns bancos deveriam ser punidos pela¬†manipula√ß√£o. Sete institui√ß√Ķes europeias¬†e americanas Ė Deutsche Bank, Soci√©t√©¬†G√©n√©rale, Royal Bank of Scotland, JP¬†Morgan Chase, Citigroup, UBS e o¬†pr√≥prio Barclays Ė aceitaram fazer um¬†acordo com a UE e pagaram, no total,¬†2,3 bilh√Ķes de d√≥lares em multas.

O artigo publicado pelo¬†WSJ¬†refere-se √† suspeita de que bancos, num determinado per√≠odo, em meio √† enorme crise¬†financeira desencadeada pelo mercado de¬†hipotecas americano, estariam informando Ė para efeito de defini√ß√£o da Libor¬†Ė taxas injustificadamente baixas, se comparadas com as que realmente praticavam.¬†Uma raz√£o de esses bancos agirem de tal¬†maneira seria, de acordo com o jornal¬†americano, para disfar√ßar problemas de¬†caixa que enfrentavam naquela ocasi√£o.¬†Outra raz√£o seria que os bancos estariam¬†propondo taxas favor√°veis a seus pr√≥prios¬†contratos de derivativos Ė contratos cujos¬†pagamentos futuros s√£o calculados com¬†base numa vari√°vel, como taxa de c√Ęmbio,¬†taxa de juros, cota√ß√£o de uma mercadoria¬†em bolsa, por exemplo Ė de forma articulada entre si e com seus corretores.

Luiz Gonzaga Belluzzo, que figura¬†no rol de economistas que a presidente Dilma Rousseff costuma¬†consultar, avalia que a puni√ß√£o aos bancos¬†ocorreu principalmente por esse segundo¬†motivo. ďH√° emails trocados entre os¬†respons√°veis pela defini√ß√£o da Libor e¬†os corretores de seus derivativos e entre¬†os bancos. Eles estavam combinando¬†as taxas e avisando seus corretores, que¬†estavam Ďfazendo posi√ß√Ķesí com os derivativos. Se a expectativa do mercado era¬†de que a Libor subisse, eles manipulavam¬†para ser fixada uma Libor mais baixa, ganhando dinheiro. Eles manipulam desde¬†sempre, o tempo todo, √© da natureza do¬†processoĒ, diz o professor universit√°rio¬†e diretor das Faculdades de Campinas.

A pr√≥pria forma como √© fixada a¬†Libor facilita a manipula√ß√£o. Em meados¬†do ano passado, seu c√°lculo era feito em dez moedas e quinze prazos de vencimento¬†diferentes, num total de 150 valores de¬†taxas de juros utilizadas em todo o mundo¬†Ė como veremos adiante, essa sistem√°tica¬†mudou a partir de dezembro. Para definir¬†essas taxas, a BBA criou um painel com dezesseis bancos selecionados.

Diariamente, √†s 11 horas, dirigentes¬†desses bancos respondiam a uma pergunta: ďSe lhe fosse pedido, a que taxa¬†voc√™ emprestaria dinheiro num mercado¬†de ofertas interbanc√°rias de tamanho¬†razo√°vel, imediatamente antes das 11 horas?Ē. Cada banco participante fazia suas¬†propostas correspondentes √†s 150 taxas.¬†Para definir apenas um √≠ndice para cada¬†uma delas, a BBA trabalhava em parceria¬†com a Thomson Reuters, empresa de¬†informa√ß√£o internacional de grande prest√≠gio. A Thomson Reuters recebia as 2,4 mil¬†propostas, calculava e divulgava as taxas¬†√†s 11h45. O c√°lculo era feito da seguinte¬†forma: as 25% maiores e as 25% menores¬†propostas para cada taxa eram desprezadas¬†e cada uma das 150 Libor resultava da¬†m√©dia das oito propostas restantes.

Jos√© Carlos Santos, professor da Faculdade de Economia, Administra√ß√£o e Contabilidade da Universidade de S√£o Paulo,¬†diz que o que mais facilitou a manipula√ß√£o¬†da Libor foi o fato de tratar-se de uma¬†taxa estimada de forma muito subjetiva,¬†ao contr√°rio das demais taxas que orientam os neg√≥cios do mercado financeiro,¬†obtidas em transa√ß√Ķes reais. ďS√£o 150¬†taxas todos os dias e nem sempre todos os¬†bancos realizaram transa√ß√Ķes com todas¬†essas moedas para todos os prazosĒ, diz.¬†No Brasil, a exemplo de outros pa√≠ses, a¬†taxa do mercado interbanc√°rio Ė como √©¬†o caso da Libor Ė √© estabelecida por uma¬†m√©dia das taxas praticadas. A grande maioria desses empr√©stimos √© feita com base¬†em t√≠tulos do Tesouro Nacional e utiliza¬†a taxa Selic (ver ďNo mundo do dinheiro¬†gra√ļdoĒ,¬†Retrato do Brasil¬†n√ļmero 60, julho de¬†2012). Uma parcela bem menor n√£o utiliza os t√≠tulos do Tesouro como base e a¬†taxa m√©dia dessas opera√ß√Ķes forma uma¬†outra taxa de juros, a DI (sigla que vem¬†de dep√≥sitos interfinanceiros), utilizada¬†nos empr√©stimos a clientes em opera√ß√Ķes¬†que utilizam certificados de dep√≥sitos¬†banc√°rios (CDBs) e como refer√™ncia para¬†a emiss√£o de deb√™ntures (t√≠tulos emitidos¬†por empresas), entre outras aplica√ß√Ķes.

A Libor tem, segundo Santos, o¬†mesmo papel da DI: embora as taxas de¬†juros de t√≠tulos dos principais pa√≠ses sejam¬†uma refer√™ncia important√≠ssima, a taxa¬†fixada na City expressa a l√≥gica de negocia√ß√£o dos ativos privados. De acordo com¬†Belluzzo, √© o que ďexprime o estado de¬†percep√ß√£o de liquidez e de risco dos mercados, denota o grau de confian√ßa entre¬†os bancosĒ. Sendo uma taxa de refer√™ncia,¬†segundo ele, ďquando se faz uma opera√ß√£o¬†de t√≠tulos no mercado internacional, ao¬†definir a taxa de juros, se pensa na Libor¬†e mais alguma coisaĒ.

Mas por que a Libor se tornou¬†t√£o importante? ďNo final dos¬†anos 1960, quando os sistemas¬†financeiros eram basicamente nacionais¬†e muito regulados, surgiu em Londres¬†o euromercadoĒ, diz Belluzzo. ďBancos¬†americanos come√ßaram a operar no¬†mercado londrino com os capitais das¬†empresas americanas que se estabeleceram¬†na Europa depois da Segunda Guerra,¬†para ¬†escapar da r√≠gida regula√ß√£o financeira¬†americana. Eles criaram esse espa√ßo de¬†opera√ß√Ķes chamado euromercado, com¬†d√≥lares depositados fora dos EUA.Ē¬†A City de Londres se transformou no¬†centro financeiro internacional. ďEssa √© a¬†primeira etapa da globaliza√ß√£o financeiraĒ,¬†conclui Belluzzo.

Um artigo de Ramaa Vasudevan, professora assistente de economia da Colorado State University, publicado pela revista americana Monthly Review em janeiro do ano passado, também ajuda a entender o caso. Ela lembra que o mercado de eurodólares também foi o canal por onde fluíram os superávits dos países exportadores de petróleo, ampliados com a elevação dos preços do barril da commodity na mesma época. A Libor, segundo ela, tem origem nessa explosão dos fluxos financeiros privados no sistema monetário internacional e no crescimento do neoliberalismo, que aos poucos eliminou a rígida regulação do sistema financeiro que emergiu com o final do segundo conflito mundial.

Em 1979, quando Paul Volcker, ent√£o presidente do Fed, promoveu uma¬†s√ļbita e expressiva eleva√ß√£o das taxas de¬†juros para conter a eleva√ß√£o da infla√ß√£o¬†e atrair capitais para diminuir o d√©ficit¬†em seu balan√ßo de pagamentos, os EUA¬†sinalizaram que a abertura e a integra√ß√£o¬†financeiras eram a sa√≠da para os graves¬†problemas que os americanos tinham¬†enfrentado durante aquela d√©cada. A decis√£o afetou profundamente as d√≠vidas das¬†na√ß√Ķes do Terceiro Mundo e fez eclodir¬†uma crise em 1983, quando pa√≠ses que,¬†como o Brasil, tomaram empr√©stimos¬†com taxas de juros baix√≠ssimas Ė por√©m¬†vari√°veis Ė em raz√£o da abund√Ęncia de¬†capitais viram-se na situa√ß√£o de pag√°-los quando as taxas foram √†s alturas. A¬†manobra de Volcker tamb√©m repercutiu¬†seriamente no mercado internacional de¬†t√≠tulos, uma vez que os pap√©is do Tesouro¬†americano passaram a pagar juros muito¬†altos, provocando grandes perdas para¬†institui√ß√Ķes financeiras que tinham em¬†carteira t√≠tulos remunerados com taxas¬†mais baixas ou tinham que pagar t√≠tulos¬†com taxa vari√°vel.

Como a taxa de juros americana trazia¬†um forte componente de instrumento da¬†pol√≠tica monet√°ria dos EUA, o mercado¬†passou a buscar outra refer√™ncia para os¬†neg√≥cios privados. √Č nesse contexto que a¬†Libor se mostrou como alternativa, j√° em¬†meados da d√©cada de 1980. A taxa existia¬†desde muito antes, mas, ao ser definida¬†como refer√™ncia internacional para a¬†negocia√ß√£o de t√≠tulos de diferentes tipos,¬†prazos de vencimento e moedas, tornou-se amplamente utilizada, exatamente no¬†momento em que o mercado financeiro¬†internacional passava por um processo¬†de crescimento sem precedentes, com a¬†cria√ß√£o de in√ļmeros tipos de ďprodutosĒ¬†negociados globalmente, apoiado tamb√©m na possibilidade de realiza√ß√£o de¬†transa√ß√Ķes instant√Ęneas, proporcionada¬†pelo desenvolvimento e propaga√ß√£o das¬†redes de computadores.

De forma geral, a Libor sempre acompanhou as taxas de juros dos t√≠tulos do¬†Tesouro americano (treasuries), apresentando valores¬†um pouco mais altos, entre meio e um¬†ponto percentual. Houve ocasi√Ķes em que¬†essa diferen√ßa se ampliou, refletindo-se¬†principalmente nas crises de liquidez, mas¬†nos momentos de calmaria as duas taxas¬†caminharam paralelamente, expressando¬†a pol√≠tica monet√°ria americana, que, por¬†sua vez, responde ao desempenho da¬†economia americana e global.

Quando, no entanto, teve in√≠cio a crise¬†financeira americana mais recente, em¬†agosto de 2007, a Libor se ďdescolouĒ¬†dos¬†treasuries¬†e a diferen√ßa entre as taxas se¬†ampliou para entre quatro e cinco pontos¬†percentuais, sinal da falta de cr√©dito no¬†mercado. Mas, pouco depois Ė entre o in√≠cio de janeiro e meados de mar√ßo de 2008 Ė,¬†houve um per√≠odo em que as duas taxas¬†se reaproximam, o que d√° a impress√£o de que a Libor foi, propositadamente, puxada para baixo. Pouco antes da den√ļncia¬†doWSJ, a diferen√ßa voltou a se ampliar.

As investiga√ß√Ķes sobre a manipula√ß√£o da Libor abrangem um¬†per√≠odo que vai de 2005 a 2009. Segundo o di√°rio brit√Ęnico¬†Financial Times,¬†de grande prest√≠gio na √°rea econ√īmico-financeira, desde o in√≠cio de 2005 havia¬†evid√™ncias de que o Barclays tentou¬†manipular as taxas da Libor para d√≥lar, a¬†pedido de seus negociadores de derivativos e de outros bancos. O jornal publicou¬†uma esp√©cie de cronologia do esc√Ęndalo,¬†citando aqui e ali trechos de correspond√™ncia entre bancos e do Barclays com¬†autoridades brit√Ęnicas envolvidas nas¬†investiga√ß√Ķes. Um dos representantes¬†que faziam as propostas pelo Barclays¬†escreveu num e-mail: ďAs Libors n√£o est√£o¬†refletindo o verdadeiro custo do dinheiroĒ. A Commodity Futures Trading Comission, entidade de regula√ß√£o americana,¬†informou em dezembro de 2007 que o¬†empregado respons√°vel pela proposta das¬†taxas do Barclays para a Libor contatou¬†a comiss√£o para dizer que o banco n√£o¬†estava propondo taxas ďhonestasĒ, e h√°¬†v√°rios trechos que mostram envolvimento¬†de outros bancos e evid√™ncias de que altas¬†autoridades do governo brit√Ęnico tinham¬†conhecimento dos fatos.

Ao mesmo tempo, uma comiss√£o¬†criada pelo governo do Reino Unido¬†estudou procedimentos de ďseguran√ßaĒ a¬†serem adotados e foi aberto um processo¬†de sele√ß√£o para escolher outra institui√ß√£o¬†para coordenar a ďprodu√ß√£oĒ da taxa diariamente. A eleita foi a ICE Benchmark¬†Administration Limited (IBA), empresa¬†do grupo Intercontinental Exchange¬†(ICE), criado em 2000 para desenvolver¬†um centro de neg√≥cios na √°rea de energia, que adquiriu a Bolsa Internacional¬†de Petr√≥leo no ano seguinte. Em 2008, a¬†ICE lan√ßou uma subsidi√°ria, a ICE Clear¬†Europa, primeira clearing house (casa de¬†cust√≥dia de t√≠tulos fi nanceiros) do Reino Unido em um s√©culo, a qual, no ano¬†seguinte, iria se tornar a l√≠der mundial¬†nesse segmento.

No ano passado, em meio ao desfecho da crise da Libor, a ICE comprou a¬†Nyse Euronext, neg√≥cio que anteciparia¬†uma brutal concentra√ß√£o na √°rea dos¬†neg√≥cios financeiros, completada no¬†in√≠cio deste ano, quando adquiriu a Bolsa¬†Mercantil de Cingapura, expandindo sua¬†rede para a √Āsia. Para se ter uma ideia¬†da amplitude dessas a√ß√Ķes, √© preciso¬†levar em conta a trajet√≥ria da pr√≥pria¬†Nyse Euronext, fruto da fus√£o, ocorrida¬†em 2007, da Bolsa de Valores de Nova¬†York (Nyse, na sigla em ingl√™s) com a¬†Euronext, formada em 2000, por sua¬†vez, pela jun√ß√£o das bolsas de Amsterd√£,¬†Bruxelas, Paris e Lisboa. √Äquela altura, a¬†Nyse havia adquirido, em 2002, a Bolsa Internacional de Valores e Futuros de¬†Londres (Liffe, na sigla em ingl√™s) e,¬†seis anos mais tarde, comprado a Amex¬†(American Stock Exchange).

Com todo o poder, a ICE, por¬†meio da IBA, assumiu a administra√ß√£o da Libor no in√≠cio de¬†fevereiro e divulgou suas primeiras cota√ß√Ķes ďsob nova dire√ß√£oĒ. Desde o final¬†do ano passado, os 150 c√°lculos di√°rios¬†da taxa foram reduzidos a 35 (cinco moedas e sete prazos). At√© meados do m√™s¬†passado nada havia sido alterado quanto¬†√† metodologia di√°ria de c√°lculo, mas a¬†ICE promete adotar em breve mecanismos mais ďtransparentesĒ, acatando as¬†propostas do governo brit√Ęnico.

A substitui√ß√£o da BBA pela IBA¬†√© baseada no argumento de que n√£o √©¬†bom que os pr√≥prios bancos definam a¬†Libor Ė eles t√™m ¬†interesses muito diretos¬†no valor da taxa, o que cria um ambiente¬†prop√≠cio √† manipula√ß√£o.

Mas ser√° que a¬†ICE n√£o tem interesses ligados √† Libor,¬†dado o grau de interliga√ß√£o entre os diversos tipos de aplica√ß√Ķes financeiras?¬†A ICE tornou-se gigante na administra√ß√£o de neg√≥cios nessa √°rea, assumindo¬†atividades de forma cada vez mais concentrada na negocia√ß√£o de a√ß√Ķes e t√≠tulos¬†em todo o mundo. Um de seus neg√≥cios¬†√© a Liffe, que domina o mercado de produtos com taxas de juros de curto prazo,¬†oferecendo contratos futuros em libras¬†esterlinas e euro, baseados na Libor. Por¬†isso, diz Finbarr Hutcheson, presidente¬†da IBA, √© de interesse da ICE que os¬†investidores tenham confian√ßa na Libor.

O problema é o espírito do escorpião. Também os respeitáveis dirigentes dos maiores bancos do mundo teriam todo o interesse em manter não só a reputação da Libor, mas também a reputação dos bancos que representam. Porém, diante da crise, não puderam evitar a manipulação.



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