TTF Brasil - Notícias

Notícias de parceiros

  • Instituto Justiça Fiscal

    Para 79% da população, o Estado tem o dever de reduzir as desigualdades

    Pesquisa da Oxfam Brasil [Leia Mais]

  • Instituto Justiça Fiscal

    A Injustiça Fiscal da Política de Austeridade

    Austeridade é política de corte para satisfazer o mercado financeiro. Entrevista com economista Marcelo Milan. [Leia Mais]

  • Outras Palavras

    Dowbor: como as corporações cercam a democracia

    Como os chacais desafiam o funcionamento das instituições políticas e jurídica em busca de ganhos fartos. [Leia Mais]

  • Instituto Justiça Fiscal

    Despesas da Copa do Mundo

    Ministério Público do Rio Grande do Sul requer que Fifa e Internacional devolvam dinheiro gasto com estruturas temporárias da Cop [Leia Mais]

Arquivos de Notícia

Últimas notícias

  • 19.08.2016 - Gestos promove tuitaço por democracia econômica e em defesa do SUS [Leia Mais]

  • 04.08.2016 - Devo não nego, pago quando puder [Leia Mais]

  • 15.07.2016 - Gestos encaminha pedido de audiência pública para debater TTF no Congresso Nacional [Leia Mais]

  • 05.07.2016 - Projeto Robin Hood quer reduzir desigualdades [Leia Mais]

  • 04.07.2016 - A crise do capitalismo financeiro vai ao cinema [Leia Mais]

  • 22.06.2016 - Mastigando o Economês: Meta Fiscal e Dívida Pública [Leia Mais]

  • 06.06.2016 - Educação Política e Econômica, eis a nossa proposta! [Leia Mais]

  • 16.05.2016 - A Consistência dos Inconsistentes [Leia Mais]

  • 13.05.2016 - Os Panama Papers e a necessidade de monitorar o fluxo de capitais [Leia Mais]

  • 11.05.2016 - Os efeitos positivos dos tributos sobre transações financeiras (TTF) no Brasil [Leia Mais]

  • 03.05.2016 - IOF para compra de moeda estrangeira sobe de 0,38% para 1,10% [Leia Mais]

  • 02.05.2016 - Novo Marco Regulatório das ONGs assinado pela Presidenta Dilma é debatido no Recife [Leia Mais]

  • 20.04.2016 - TIRADENTES, PIONEIRO NA LUTA CONTRA OS IMPOSTOS [Leia Mais]

  • 14.04.2016 - Artigo - IOF: o que é e o que pode ser? [Leia Mais]

  • 29.03.2016 - Combater a sonegação também é fazer justiça fiscal [Leia Mais]

  • 28.03.2016 - Democracia e Direitos para uma Política Madura [Leia Mais]

  • 11.03.2016 - JUSTIÇA FISCAL E O LUCRO DOS BANCOS [Leia Mais]

  • 01.03.2016 - Com animação fica mais fácil de entender [Leia Mais]

  • 24.07.2015 - Terceira Conferência do Financiamento para o Desenvolvimento Desaponta e perde Ambição [Leia Mais]

Bancos especulam com alimentos

Mais de um bilhão de pessoas, uma em cada sete, têm fome. Os responsáveis são investidores institucionais como bancos, os principais especuladores nos mercados de produtos agrícolas. Por Eric Toussaint

Através das suas atividades de trading, os bancos são os principais especuladores nos mercados distribuidores e a prazo das matérias-primas e dos produtos agrícolas, dispondo de meios financeiros nitidamente mais avultados que os restantes intervenientes. Uma simples visita ao site do Commodity Business Awards |1| permite descobrir uma lista de bancos e de corretores que ocupam lugares de relevo no mercado de commodities |2| (quer se trate do mercado onde se vendem e compram fisicamente matérias-primas, quer seja um mercado onde se negociam derivados com base em commodities).

Entre esses bancos √© frequente encontrarmos o BNP Paribas, Morgan Stanley, Cr√©dit Suisse, Deutsche Bank e Soci√©t√© G√©n√©rale. Alguns bancos v√£o mais longe e dotam-se de instrumentos para influenciar diretamente os estoques¬†de mat√©rias-primas. √Č o caso do Credit Suisse, que est√° associado √† Glencore Xstrata, a maior sociedade mundial de corretagem em mat√©rias-primas¬†|3|. Dos bancos europeus, o BNP Paribas √©, juntamente com o Deutsche Bank, um dos mais influentes no mercado de¬†commodities e ocupa um papel-chave no setor de derivados de mat√©rias-primas¬†|4|.

V√°rios bancos norte-americanos foram mais longe que os europeus na estrat√©gia de controle de uma parte do mercado de¬†commodities, entre os quais JP Morgan, Morgan Stanley e Goldman Sachs. Por exemplo, o JP Morgan importou para os EUA 31 milh√Ķes de barris de petr√≥leo no decurso dos primeiros meses de 2013! Os bancos dos EUA s√£o propriet√°rios de refinarias de petr√≥leo, centrais el√©tricas, redes de distribui√ß√£o de energia, empresas distribuidoras de metais, de produtos agr√≠colas, empresas de explora√ß√£o de xisto...

Como se chegou a este ponto? O FED autorizou em 2003 o banco universal Citigroup a comprar a sociedade corretora Phibro, justificando que era normal completar a atividade do banco no mercado de derivados de commodities através da detenção física de estoques de matérias-primas (petróleo, gás, minerais...).

Quanto ao Morgan Stanley e √† Goldman Sachs, que at√© 2008¬†|5| tinham o estatuto de banco de investimento, puderam, a partir de 1999, gra√ßas √† lei de reforma banc√°ria, que completou a revoga√ß√£o do Glass Steagall Act, adquirir centrais el√©tricas, petroleiros e outras infra-estruturas. Assim, o Stanley Morgan passou a possuir batel√Ķes, petroleiros, oleodutos, terminais de petr√≥leo e silos de g√°s!

Por seu lado, o JP Morgan comprou o departamento de¬†commodities¬†do RBS em 2010, por 1,7 mil milh√Ķes de d√≥lares, o que lhe permitiu adquirir 74 postos de armazenagem de metais no Reino Unido e nos EUA, enquanto a Goldman Sachs det√©m 112. Estes dois bancos det√™m em conjunto mais armaz√©ns de metais que o Glencore (que possui 179). Possuir postos de armazenagem √© fundamental, nomeadamente se uma sociedade ou um cartel de sociedades (por exemplo os bancos) quiser especular com os pre√ßos, retendo ao m√°ximo em armaz√©m para fazer subir os pre√ßos ou inundando o mercado para os fazer baixar.

Foi o que se passou concretamente, por exemplo, no mercado de alum√≠nio a partir de 2008. Segundo uma investiga√ß√£o levada a cabo pelo New York Times, desde que a Goldman Sachs comprou em 2010 os armaz√©ns de alum√≠nio de Detroit, o tempo de entrega do alum√≠nio em barras passou de seis semanas para dezesseis meses. Os pre√ßos subiram de forma vis√≠vel (apesar de a oferta e os¬†estoques¬†de alum√≠nio no mercado mundial terem aumentado), o que provocou fortes rea√ß√Ķes de empresas como a Coca-Cola e a cervejeira Miller, grandes consumidoras de alum√≠nio para fabrico de latas... S√≥ em lucros de armazenagem atacadista de alum√≠nio em Detroit, a Goldman encaixou 220 milh√Ķes de d√≥lares¬†|6|.

Depois de obter suculentos benef√≠cios manipulando os tribunais, os bancos com maior presen√ßa nos mercados f√≠sicos de¬†commodities¬†adotaram uma estrat√©gia de sa√≠da. Tr√™s raz√Ķes principais levaram-nos nessa dire√ß√£o. Primeiro, as autoridades de controle deram conta das manipula√ß√Ķes praticadas por numerosos bancos. JP Morgan, Barclays, Deutsche Bank tiveram de pagar multas em diversos neg√≥cios, nomeadamente por causa da manipula√ß√£o do mercado de eletricidade da Calif√≥rnia. O JP Morgan aceitou pagar uma multa de 410 milh√Ķes de d√≥lares nesse processo, que ainda n√£o est√° conclu√≠do.¬†|7| As autoridades norte-americanas, pressionadas pelas sociedades concorrentes dos bancos e face √† impopularidade dos banqueiros em geral, procuram limitar seriamente as atividades dos bancos nos mercados f√≠sicos de¬†commodities.

Segundo, os lucros obtidos pelos bancos nesses mercados come√ßaram a baixar a partir de 2011‑2012 e os pre√ßos das mat√©rias-primas tendem a contrair-se. Terceiro, o capital (Core Tier 1) necess√°rio aos investimentos nas empresas de corretagem √© mais pesado que em outros investimentos (d√≠vidas soberanas, por exemplo). Como os bancos t√™m de aumentar a propor√ß√£o entre fundos pr√≥prios e ativos ponderados, acabam por chegar √† conclus√£o de que mais vale desfazerem-se, no seu todo ou em parte, dos investimentos no mercado f√≠sico de¬†commodities¬†|8|.

Esta é uma situação ainda em evolução. Nada disto impede que os bancos continuem muito ativos nos mercados de derivados de commodities e nos segmentos de mercados financeiros ligados às matérias-primas. A sua capacidade nociva é e continuará a ser muito considerável se, entretanto, não forem tomadas medidas radicais.

Estes bancos s√£o os respons√°veis de primeira linha pelo desenvolvimento da bolha especulativa que se formou no mercado de¬†commodities¬†|9|. Quando ela rebentar, o efeito de boomerang na sa√ļde dos bancos provocar√° novos estragos. H√° ainda que ter em conta o real desastre, bastante mais grave, para as popula√ß√Ķes dos pa√≠ses do Sul exportadores de mat√©rias-primas. De uma forma ou de outra, todos os povos do mundo ser√£o afetados.

PAPEL DA ESPECULA√á√ÉO NA INFLA√á√ÉO DOS PRE√áOS DOS ALIMENTOS E DO PETR√ďLEO EM 2007-2008

A especula√ß√£o nos principais mercados dos EUA onde se negociam os pre√ßos mundiais dos bens prim√°rios (produtos agr√≠colas e mat√©rias-primas) contribuiu decisivamente para o crescimento brutal dos pre√ßos dos alimentos em 2007-2008 |10|. Esta subida dos pre√ßos provocou um aumento dram√°tico, de mais de 140 milh√Ķes num ano, do n√ļmero de pessoas que sofrem de subnutri√ß√£o.

Mais de um bilh√£o de seres humanos (uma pessoa em cada 7) t√™m fome. Os respons√°veis n√£o s√£o francos-atiradores, s√£o investidores institucionais (os bancos |11|, os fundos de pens√Ķes, os fundos de investimento, as seguradoras), as grandes sociedades de trading como a Cargill. Os hedge funds tamb√©m t√™m a sua quota de responsabilidade, embora o seu peso seja inferior ao dos investidores institucionais |12|.

Michael W. Masters, que dirigia h√° doze anos um hedge fund da Wall Street, explicitou o papel nefasto dessas institui√ß√Ķes, ao apresentar o seu testemunho perante uma comiss√£o do Congresso em Washington, em 20 de maio de 2008 |13|. Nessa comiss√£o, encarregada de inquirir o poss√≠vel papel da especula√ß√£o na subida dos pre√ßos dos produtos de base, declarou ele: ¬ęPerguntam-me: os investidores institucionais contribuem para a infla√ß√£o dos pre√ßos dos alimentos e da energia? A minha resposta inequ√≠voca √© esta: SIM¬Ľ |14|.

Neste testemunho, que √© exemplar, ele explica que o aumento dos pre√ßos dos alimentos e da energia n√£o se deve a uma insufici√™ncia da oferta, mas sim a um aumento brutal da procura proveniente de novos atores nos mercados a prazo dos bens prim√°rios (commodities) onde se compram ¬ęfuturos¬Ľ. Nesse mercado (tamb√©m chamado contrato a prazo), os intervenientes compram a produ√ß√£o futura: a pr√≥xima colheita de trigo, o petr√≥leo que ser√° produzido nos pr√≥ximos seis ou cinco anos etc. No passado, os principais intervenientes nesses mercados eram empresas que tinham um interesse espec√≠fico Ė ligado √† sua atividade Ė num desses bens prim√°rios. Podia tratar-se por exemplo duma companhia a√©rea que compra o petr√≥leo de que necessita ou de uma firma alimentar que negocia cereais.

Michael W. Masters mostra que, nos EUA, os capitais consignados pelos investidores institucionais ao segmento index trading dos bens prim√°rios dos mercados a prazo passaram de 13 bilh√Ķes de d√≥lares em finais de 2003, para 260 bilh√Ķes em mar√ßo de 2008 |15|. Os pre√ßos de 25 bens prim√°rios cotados nesses mercados subiram 183% durante o mesmo per√≠odo. Explica ele que se trata de um mercado estreito e que basta que investidores institucionais como os fundos de pens√Ķes ou os bancos consignem 2% dos seus ativos para perturbar seu funcionamento.

Em 2004, o valor total dos contratos futuros respeitantes a 25 bens prim√°rios elevava-se a 180 bilh√Ķes de d√≥lares. Comparando com o mercado mundial de a√ß√Ķes, que representava 44 bilh√Ķes, era 240 vezes mais. Michael W. Masters indica que nesse ano os investidores institucionais investiram 25 bilh√Ķes de d√≥lares no mercado de futuros, o que perfaz 14% do mercado. Revela que durante o primeiro trimestre de 2008 os investidores institucionais aumentaram de forma consider√°vel os seus investimentos nesse mercado: 55 bilh√Ķes em 52 dias √ļteis. N√£o admira que os pre√ßos disparem!

O preço dos bens primários no mercado a prazo repercute imediatamente nos preços correntes desses bens. Assim, quando os investidores institucionais compraram quantidades enormes de milho e trigo em 2007-2008, os preços desses produtos dispararam.

Note-se que em 2008 o √≥rg√£o de controle dos mercados a prazo, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC), estimou que os investidores institucionais n√£o podiam ser considerados como especuladores. A CFTC definiu-os como participantes comerciais nos mercados (¬ęcommercial market participants¬Ľ). Isto permite-lhe afirmar que a especula√ß√£o n√£o desempenha um papel de relevo nos pre√ßos.

Michael W. Masters faz uma cr√≠tica severa √† CFTC; mais severa ainda √© a cr√≠tica de Michael Greenberger, professor de Direito na Universidade de Maryland, que prestou declara√ß√Ķes perante uma comiss√£o do Senado a 3-06-2008. Michael Greenberger, que foi diretor de um departamento da CFTC de 1997 a 1999, critica a permissividade dos dirigentes que metem a cabe√ßa na areia face √† manipula√ß√£o dos pre√ßos da energia pelos investidores institucionais. Ele cita uma s√©rie de declara√ß√Ķes desses dirigentes, dignas de figurarem numa antologia da hipocrisia e da estupidez humana. Segundo Michael Greenberger, 80 a 90% das transa√ß√Ķes nas bolsas dos EUA no setor da energia s√£o especulativas |16|. A autoridade das suas afirma√ß√Ķes permanece incontestada.
Em 22 de setembro de 2008, em plena tormenta financeira nos EUA, enquanto o presidente Bush anunciava um plano de resgate dos bancos que consistia em entregar-lhes 700 bilh√Ķes de d√≥lares (sem contar com a liquidez que lhes foi posta √† disposi√ß√£o massivamente), o pre√ßo da soja dava um salto especulativo de 61,5%!

Jacques Berthelot tamb√©m demonstra o papel crucial desempenhado pela especula√ß√£o dos bancos na subida dos pre√ßos agr√≠colas mundiais |17|. D√° como exemplo o banco belga KBC, que levou a cabo uma campanha publicit√°ria para vender um novo produto comercial: um investimento, dirigido √†s poupan√ßas, em seis mat√©rias-primas agr√≠colas. Os fundos de investimento ¬ęKBC-Life MI Security Food Prices 3¬Ľ acenam aos clientes com um slogan c√≠nico: ¬ęTirem partido da subida de pre√ßo da alimenta√ß√£o!¬Ľ Esta publicidade apresenta como uma ¬ęoportunidade¬Ľ a ¬ępen√ļria de √°gua e de terras agr√≠colas cultiv√°veis¬Ľ, donde resulta ¬ęuma pen√ļria de produtos alimentares e uma alta dos pre√ßos da alimenta√ß√£o¬Ľ |18|.

Do lado da justi√ßa americana, os especuladores est√£o a salvo. Paul Jorion, num artigo de opini√£o publicado no Le Monde, p√Ķe em causa a decis√£o de um tribunal de Washington que invalidou a 29 de setembro de 2012 medidas tomadas pela CFTC ¬ęque visavam criar um teto para o volume das posi√ß√Ķes detidas por um interveniente no mercado a prazo das mat√©rias-primas, a fim de que n√£o possa, s√≥ por si, desequilibr√°-lo¬Ľ |19|.

Jean Ziegler, ex-relator das Na√ß√Ķes Unidas para o direito √† alimenta√ß√£o, exprime a situa√ß√£o sem rodeios: ¬ęA crise financeira de 2007-2008 provocada pelo banditismo banc√°rio teve duas consequ√™ncias, entre outras. Primeira: os fundos especulativos (hedge funds) e os grandes bancos migraram depois de 2008, abandonando certos segmentos dos mercados financeiros e virando-se para os mercados das mat√©rias-primas, nomeadamente o das mat√©rias-primas agr√≠colas. Se olharmos para os tr√™s alimentos de base (milho, arroz e trigo), que preenchem 75% do consumo mundial, vemos que os pre√ßos explodiram. Em dezoito meses, o pre√ßo do milho aumentou 93%, a tonelada de arroz passou de 105 para 1010 d√≥lares e a tonelada de trigo mo√≠do duplicou a partir de setembro de 2010, passando para 271 euros.

Esta explos√£o dos pre√ßos gera lucros astron√īmicos para os especuladores, mas mata nos bairros de lata centenas de milhares de mulheres, homens e crian√ßas. Segunda consequ√™ncia: a corrida dos hedge funds e de outros especuladores √†s terras ar√°veis do hemisf√©rio Sul. Segundo o Banco Mundial, em 2011, 41 milh√Ķes de hectares ar√°veis foram a√ßambarcados pelos fundos de investimento e pelas multinacionais s√≥ na √Āfrica. Em consequ√™ncia foram expulsos os pequenos agricultores. |20|

Em fevereiro de 2013, num relat√≥rio intitulado ¬ęOs Bancos Franceses Que Especulam com a Fome¬Ľ, a ONG Oxfam France indica que os quatro principais bancos franceses Ė BNP Paribas, Soci√©t√© G√©n√©rale, Cr√©dit Agricole e Natixis (BPCE) Ė geriam para os seus clientes, em novembro de 2012, pelo menos dezoito fundos de especula√ß√£o sobre as mat√©rias-primas.

¬ęH√° pelo menos duas formas de especular¬Ľ, explica Clara Jamart, respons√°vel pela seguran√ßa alimentar na Oxfam France. ¬ęTomando posi√ß√Ķes nos mercados de produtos derivados de mat√©rias-primas agr√≠colas. Ou atrav√©s de fundos de √≠ndice, que seguem os pre√ßos das mat√©rias-primas agr√≠colas e os puxam para cima.¬Ľ¬†|21| A maioria desses fundos foi criada aquando do in√≠cio da crise alimentar de 2008, com o objetivo manifesto de extrair ganhos da especula√ß√£o sobre alimentos e outras commodities.

Em Bruxelas, o R√©seau Financement Alternatif tamb√©m denunciou em 2013 seis bancos ativos na B√©lgica no √Ęmbito da especula√ß√£o sobre a fome no mundo. Cerca de 950 milh√Ķes de euros provenientes de clientes de bancos belgas servem para especular com as mat√©rias-primas alimentares |22|.

√Č preciso p√īr fim a esta ordem de coisas. Eis 22 propostas que visam construir uma alternativa √† crise alimentar |23|.

> Proibir a especula√ß√£o sobre a alimenta√ß√£o; especular com a vida das pessoas √© um crime, por isso os governos e as institui√ß√Ķes internacionais devem proibir os investimentos especulativos sobre os produtos alimentares.
Proibir os derivados sobre commodities.
> Proibir os bancos e outras sociedades financeiras privadas de intervir no mercado das commodities.
> Socializar a banca sob controle cidad√£o, nomeadamente atribuindo-lhe como miss√£o o financiamento de projetos agr√≠colas que favore√ßam a soberania alimentar e deem prioridade √†s pequenas explora√ß√Ķes familiares, √†s cooperativas e ao setor agr√≠cola p√ļblico.
> Estabelecer ou restabelecer organiza√ß√Ķes internacionais reguladoras dos mercados e da produ√ß√£o dos principais produtos de exporta√ß√£o (carteis de pa√≠ses produtores por exemplo nos setores do caf√©, cacau, bananas, ch√° etc.) para assegurar pre√ßos est√°veis em n√≠vel internacional.
Acabar com os planos de ajustamento estrutural (PAS) que obrigam os Estados a renunciar à soberania alimentar.
> Proibir o açambarcamento de terras.
> Promover reformas agr√°rias globais (sobre a terra, claro est√°, mas tamb√©m no que diz respeito √† √°gua e √†s sementes) para assegurar que os camponeses e camponesas que produzem alimentos para as popula√ß√Ķes tenham acesso aos recursos agr√≠colas, em vez das grandes empresas que praticam a explora√ß√£o.
> Inscrever o direito √† soberania alimentar no direito internacional, para que o direito de cada pa√≠s a desenvolver as suas pr√≥prias pol√≠ticas agr√≠colas e a proteger a sua agricultura, sem molestar os outros pa√≠ses, seja reconhecido (nomeadamente na Carta dos Direitos Econ√īmicos, Sociais e Culturais).
> Acabar com os mecanismos de servid√£o da d√≠vida p√ļblica externa ou interna dominados pelos bancos privados, assim como acabar com a servid√£o das fam√≠lias camponesas aos usur√°rios privados.
> Promover uma moratória sobre os agrocombustíveis industriais, proibir os organismos geneticamente alterados.
> Reformar a Política Agrícola Comum da UE e o Farm Bill dos EUA, que produzem efeitos devastadores no equilíbrio dos mercados agrícolas.
> N√£o subscrever, e, se for o caso, denunciar os acordos de livre troca multilateral e bilateral (ALE e APE) que contradizem a soberania alimentar.
> Estabelecer ou restabelecer as prote√ß√Ķes alfandeg√°rias √†s importa√ß√Ķes agr√≠colas.
> Reconstituir as reservas alimentares p√ļblicas em cada pa√≠s.
> Restabelecer mecanismos de garantia dos preços agrícolas.
> Desenvolver políticas de controle da produção para estabilizar os preços agrícolas.
> Controlar as margens de lucro dos intermedi√°rios.

A seguran√ßa alimentar de todos n√≥s passa por pre√ßos agr√≠colas est√°veis que cubram os custos de produ√ß√£o e assegurem a remunera√ß√£o decente dos produtores. O modelo de pre√ßos agr√≠colas baixos, promovido pelos governos para aumentar o consumo em massa de produtos manufaturados e de servi√ßos (turismo, entretenimento, telecomunica√ß√Ķes etc.), n√£o √© sustent√°vel, nem no plano social nem no plano ambiental. √Č um modelo que beneficia essencialmente as grandes empresas do agroneg√≥cio, os bancos privados e, desviando as aten√ß√Ķes democr√°ticas das popula√ß√Ķes para o consumo em massa, as elites pol√≠ticas e econ√īmicas dos pa√≠ses, que confiscam assim o poder.

Face às crises alimentares e ambientais atuais, é indispensável e urgente fazer mudanças radicais. As propostas acima apresentadas oferecem pistas para políticas agrícolas e comerciais baseadas na soberania alimentar e permitem a estabilização dos preços agrícolas em níveis capazes de assegurar uma produção alimentar sustentável na grande maioria dos países de todo o mundo.

No plano local, convém acrescentar:
> Apoiar a produção agrícola local, nomeadamente apoiando a atividade agrícola e facilitando os mecanismos de crédito aos pequenos produtores.
> Apoiar e desenvolver os circuitos de comercialização diretos/curtos entre produtores e consumidores, para que os preços assegurem a remuneração dos camponeses e sejam acessíveis aos consumidores.
> Encorajar o consumo de produtos locais.
> Apoiar os modos de produ√ß√£o mais aut√īnomos, por oposi√ß√£o aos produtos da ind√ļstria qu√≠mica [sementes, adubos, fertilizantes, etc.], e portanto menos sujeitos √†s varia√ß√Ķes de custos de produ√ß√£o (pecu√°ria alimentada a erva em vez de milho/soja, por exemplo).

Artigo publicado em CADTM.org; Tradução: Rui Viana Pereira; Revisão: Maria da Liberdade

Notas
|1| http://www.commoditybusinessawards.com/winners/winners-2013.html
|2| As commodities incluem o mercado de matérias-primas (produtos agrícolas, minerais, metais e metais preciosos, petróleo, gás, etc.). As commodities, tal como outros ativos, são negociadas de forma a permitir a determinação dos seus preços, tanto nos mercados à vista como nos mercados de derivados.
|3| A Glencore Xsrata √© uma companhia de investimento e corretagem de mat√©rias-primas fundada pelo trader Marc Rich. Tem sede na Su√≠√ßa, em Baar, no cant√£o de Zoug, para√≠so fiscal bem conhecido pelos burlistas de alto gabarito. Marc Rich (falecido em 2013) foi processado por diversas vezes, por corrup√ß√£o e evas√£o fiscal. Foi anistiado pelo presidente Bill Clinton no √ļltimo dia do seu mandato presidencial, o que provocou um esc√Ęndalo consider√°vel. A Glencore Xsrata det√©m no seu todo ou em parte 150 minas e s√≠tios metal√ļrgicos. Segundo os dados dispon√≠veis, antes da fus√£o com a Xsrata, que teve lugar em 2013, a Glencore controlava cerca de 60 % do zinco mundial, 50 % do cobre, 30 % do alum√≠nio, 25 % do carv√£o, 10 % dos cereais e 3 % do petr√≥leo. Esta sociedade muito controversa recebeu em 2008 o pr√™mio Public Eye Awards da multinacional mais irrespons√°vel. A Glencore Xsrata est√° presente em 50 pa√≠ses e emprega 190 mil pessoas (ver http://www.glencorexstrata.com/about-us/at-a-glance/ e http://www.glencorexstrata.com/assets/Uploads/20130711-GlencoreXstrata-Factsheet.pdf). O patr√£o e principal propriet√°rio da Glencore Xsrata (det√©m 16 % das a√ß√Ķes), Ivan Galsenberg, teria recebido uma remunera√ß√£o de cerca de 60 milh√Ķes de d√≥lares 2013 (ver: http://lexpansion.lexpress.fr/economie/les-remunerations-des-patrons-de-glencore-xstrata-et-credit-suisse-epinglees_399326.html). O Cr√©dit Suisse e a Glencore Xsrata colaboram estreitamente no mercado chin√™s. As outras grandes sociedades especializadas em corretagem (trading) de commodities (al√©m dos bancos ativos nessa √°rea) s√£o Vitol (Holanda), Cargill (EUA), Trafigura (Holanda), Noble Group (Hong-Kong/Singapura), Wilmar (Singapura), Louis Dreyfus commodities (Fran√ßa), Mitsui (Jap√£o), Mitsubishi (Jap√£o), ADM (EUA). O rendimento acumulado da Glencore e destas 9 sociedades elevou-se ao montante colossal de 1,2 bilh√Ķes de d√≥lares em 2012. Ver Financial Times, ¬ęTougher times for the trading titans¬Ľ, 15-04-2013.
|4| Ver no sítio especializado: http://cib.bnpparibas.com/Products-services/Managing-your-risks-and-assets/Commodity-Derivatives/page.aspx/100
|5| Morgan Stanley e Goldman Sachs obtiveram a licença de banco comercial universal em plena crise, a fim de se beneficiarem de maior apoio do Estado e evitarem o mesmo destino do banco de investimento Lehman Brothers.
|6| LíEcho, ¬ęDes banques am√©ricaines accus√©es de manipuler les mati√®res premi√®res¬Ľ, 24-07-2013.
|7| Financial Times, ¬ęJPMorgan nears commodities sale¬Ľ, 6-02-2014. O Barclays, por seu lado, pagou uma multa de 470 milh√Ķes de d√≥lares no mesmo processo.
|8| O JP Morgan anunciou no início de 2014 a intenção de vender as suas atividades físicas de commodities; o Deutsche Bank fez o mesmo. O Morgan Stanley chegou a acordo com a petrolífera russa Rosneft no sentido de lhe ceder uma parte do seu negócio.
|9| √Č claro que, no meio dos poderosos protagonistas do mercado de mat√©rias-primas e de produtos alimentares, h√° que juntar as grandes empresas especializadas na extra√ß√£o, produ√ß√£o e comercializa√ß√£o de commodities: nos minerais, Rio Tinto, BHP Billiton, Companhia Vale do Rio Doce; no petr√≥leo, ExxonMobil, BP, Shell, Chevron, Total; nos alimentos, al√©m da Cargill j√° mencionada ao n√≠vel da corretagem, Nestl√©, Monsanto e muitas outras, entre as quais v√°rias empresas chinesas.
|10| Analisei as causas da crise alimentar de 2007-2008 em Eric Toussaint, ¬ęUne fois encore sur les causes de la crise alimentaire¬Ľ, 9-10-2008. Ver tamb√©m: Damien Millet e Eric Toussaint, ¬ęPourquoi une faim galopante au XXIe si√®cle et comment lí√©radiquer?¬Ľ, 24-04-2009.
|11| Nomeadamente BNP Paribas, JP Morgan, Goldman Sachs, Morgan Stanley e, até ao momento do seu desaparecimento ou da sua compra, Bear Stearns, Lehman Brothers, Merrill Lynch.
|12| Ao n√≠vel mundial, no in√≠cio de 2008, os investidores institucionais dispunham de 130 bilh√Ķes de d√≥lares, os fundos soberanos de 3 bilh√Ķes de d√≥lares e os hedge funds de 1 bilh√£o de d√≥lares.
|13| ¬ęTestimony of Michael W. Masters, Managing Member/Portfolio Manager Masters Capital Management, LLC, before the Committee on Homeland Security and Governmental Affairs United States Senate¬Ľ.
|14| ¬ęYou have asked the question ĎAre Institutional Investors contributing to food and energy price inflation?í And my answer is ĎYESí.¬Ľ
|15| ¬ęAssets allocated to commodity index trading strategies have risen from $13 billion at the end of 2003 to $260 billion as of March 2008¬Ľ.
|16| Ver ¬ęTestimony of Michael Greenberger, Law School Professor, University of Maryland, before the US Senate Committee regarding ďEnergy Market Manipulation and Federal Enforcement RegimesĒ¬Ľ, 3-06-2008, p. 22.
|17| Jacques Berthelot, ¬ęD√©m√™ler le vrai du faux dans la flamb√©e des prix agricoles mondiaux¬Ľ, 15-07-2008, p. 51-56
|18| http://www.lalibre.be/index.php?view=article&art_id=419336
|19| Paul Jorion, ¬ęLe suicide de la finance¬Ľ, Le Monde, 9-10-2012.
|20| Jean Ziegler, ¬ęLa faim est faite de main díhomme et peut √™tre √©limin√©e par les hommes¬Ľ, entrevista dada a Eric Toussaint e publicada a 11-02-2012. Jean Ziegler √© autor de Destruction massive, g√©opolitique de la faim, √Čditions du Seuil, Paris, 2012.
|21| Ver Le Monde, ¬ęQuatre banques fran√ßaises accus√©es de "sp√©culer sur la faim"¬Ľ, 11-02-2013. Sobre a campanha internacional da Oxfam, ver Financial Times, ¬ęFood price speculation taken off the menu¬Ľ, 4-03-2013. Ver tamb√©m no s√≠tio da Oxfam: ¬ęEU deal on curbing food speculation comes none too soon¬Ľ, 15-01-2014
|22| Ver http://blogs.lecho.be/argentcontent/2013/06/des-centaines-de-millions-deuros-belges-pour-sp%C3%A9culer-sur-la-faim.html
|23| No que diz respeito √†s propostas, o autor est√° em d√≠vida para com os debates em que participou como conferencista no decurso do semin√°rio organizado nas Can√°rias de 21 a 24-Julho-2008 pela Comiss√£o de Soberania Alimentar da organiza√ß√£o La Via Campesina. Evidentemente o conte√ļdo do presente estudo e as propostas nele contidas n√£o s√£o da responsabilidade nem das pessoas nem das organiza√ß√Ķes citadas.

Eric Toussaint, docente na Universidade de Li√®ge, preside ao CADTM (Comit√™ pela Anula√ß√£o da D√≠vida do Terceiro Mundo) Belgique. √Č autor de v√°rios livros, e o pr√≥ximo a sair, em Abril 2014:¬†Bancocratie, prolonga a s√©rie¬†¬ęBancos contra povos: os bastidores de um jogo manipulado¬Ľ, publicada em 2012-2013 no www.cadtm.org



Comentar notícia s  s  Economia global  Alimentos  Economia  Sistema Financeiro  Bancos  

A campanha pelas TTF demanda uma taxa sobre as transações financeiras internacionais Ė mercados de câmbio, ações e derivativos. Com alíquotas menores que 1%, elas incidirão sobre um volume astronômico de recursos pois esses mercados giram trilhões de dólares por dia.

http://www.outraspalavras.net